11. Um falecido que você queria muito poder conversar com
Para meus falecidos avós,
Família sempre foi um conceito um pouco complicado pra mim, eu, a caçula, por algum motivo não tive tanto contato com uma certa parte da família quanto meus irmãos mais velhos, enquanto eles conhecem tios e tias dos quais eu não sequer sabia o nome e são realmente próximos deles, eu nunca mais vi meu padrinho depois do meu batizado e nem lembro bem o nome dele (Ricardo, eu acho.).
Pra mim, minha família sempre foi eu, meus irmãos e meus pais. Pouco me importava os outros, até porque eu nunca os via, pra que realmente considerar família quando tudo que nos une é o sangue? Mas, tenho que ser sincera, sempre tive muita inveja dos meus amigos com seus avôs e avós. As avós que sempre faziam comida demais, os avôs trazendo doces e buscando os netos na escola... Eu não tive isso e minha única avó viva também não foi muito próxima de mim, não que eu sinta falta de verdade, até porque não dá pra sentir falta de algo que eu nunca tive, mas eu queria ter tido essa experiência, eu queria ter tido o que meus sobrinhos tem hoje com meus pais, sabem? Aquele amor inexplicável que as crianças sentem pelos avôs só de verem eles, queria sentir esse carinho também.
Vô Seloé, o senhor podia ter ficado aqui em São Paulo, né? Não necessariamente voltando pra avó Helena, mas ficado aqui por perto, talvez as coisas teriam sido diferentes... talvez o senhor ainda estivesse vivo. Meu pai sente sua falta e sempre diz o quão grande foi o buraco por você não estar presente e eu queria muito ter te conhecido, apenas ouço histórias e... elas não são lá muito boas, você era alguém um tanto... bagunçado, mas, ainda sim, eu queria saber como as coisas seriam com você por aqui.
Vô e Vó Lupette, infelizmente nem eu ou meus irmãos carregamos esse nome (longa história, planejo um dia conseguir acrescentar ele no meu), mas sempre ouvimos histórias sobre vocês. Minha mãe também não teve muito tempo, vocês se foram muito cedo da vida dela e ainda mais cedo da vida do meu tio, mas, penso que se vocês eram tão amáveis quanto minha mãe é hoje, acho que eu teria muito carinho por vocês.
Eu só consigo imaginar o que teria sido, talvez, com vocês, eu tivesse mais apego com o resto da família, talvez minha mãe não tivesse passado por tudo que passou tão cedo, ou meu pai tivesse crescido de uma forma diferente, menos traumatizada. Assim como, talvez, se tudo isso fosse diferente, eu não estaria aqui. É engraçado pensar no efeito dominó que as coisas acontecem, porque provavelmente minha mãe nunca teria conhecido meu pai se vocês estivessem vivos, porque com certeza ela ainda estaria no interior e meu pai aqui no centro ou até mesmo lá pro nordeste, que é de o pai dele veio, talvez eles nunca se encontrassem e nem eu ou meus irmãos existiriam.
Mas, mesmo com essas possibilidades, nossa, como eu queria ter conhecido vocês.
Giovanna


